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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Fotógrafos do Cotidiano e artistas: Nós, os terapeutas ocupacionais

Postagem de estréia. Ineditismo na minha relação com a internet que ruma para, o que chamarei, "evolucionismo tecnológico" com a web.Me senti atraído em escrever fragmentos de minha cotidianidade em um blog, tornando-os públicos. Mas para quê? Será que fui invadido, atravessado, por uma tendência contemporânea inaugurada, em tempos, como descrito pela genialidade de Foucault, comportamento midiático? Algum modo de atração a busca por uma célere celebridade me tornando um novo "big brother"? Não, nada disso. Tentarei explicar. Pode ser que seja vã afinal, não me considero muito bom com palavras embora seja apaixonado, sobremaneira, por elas.Sou terapeuta ocupacional. Provável que muitos nem saibam o que é isso. Ou melhor - ou talvez, o que seja pior, acham que sabem.Primeiramente devo dizer que cometi um grave erro. Consciente, mas um erro. Ou talvez não. Afirmei: "sou terapeuta ocupacional". Acontece, que "ser" e "terapeuta ocupacional" não não sinonímias. Entre minhas diversas facetas, diversas "caras", nos mais diversos papéis sociais que ocupo - e alguns até anti-sociais - este papel, de estar terapeuta ocupacional, de experimentar esta potência criativa, se confunde comigo mesmo. É uma força que atravessa violentamente minha existência e se confunde comigo mesmo. Uma relação simbiótica, que considero bonita, pois "meu ser" e a terapia ocupacional possuem muitas coisas em comuns. Um casamento quase perfeito. Por que não é perfeito? No início de uma relação não estmaos dispostos a discutir isso, não é verdade? Já viram casais recém-assumidos que são incapazes de enxergar as limitações relacionais do outro? Eu nunca vi. A visão apaixonada, romantizada, quase fictícia que vivemos em um início da relação faz isso. Qualquer coisa que ocorra desperta, sobremaneira, a sensibilidade acerca da maravilhosa experiência de estar apaixonado. Tudo passa a lembrar a avassaladora paixão. Uma música, um toque, um lugar, uma flor. Tudo faz-nos evocar isto. Assim, tratarei de minha relação, quase esquizofrênica, com a terapia ocupacional, desta forma. Nossa paixão, mútua e imediatamente correspondente, nos coloca sob esta condição: paixão. Aquela de início de namoro.No decurso de minha relação com a terapia ocupacional descobri diversas coisas. São mais de 10 anos de pacífica e intenso relacionamento. Nos encontramos todos os dias. Ela me ofereceu algo preciosíssimo. Raridade no contemporâneo: me presenteou. Um presente perene, nobre e indelével, que chamarei de cotidiano. Em verdade, vamos além disso. a terapia ocupacional me oferece, como responsabilidade, ser um cientista do cotidiano. Um exímio observador que tem como função intervir, quando necessário, nisto. No cotidiano. É no cotidiano que se estabelece o jogo de forças que constrói minha vida. É nele, e através dele, que me faço. Me constituo. Nele executo minhas ações. Desde as mais simples, como escovar os dentes, pentear o cabelo ou acessar o controle remoto da televisão, como as mais complexas, como ir ao banco, pintar uma tela ou jogar futebol. Ainda terei oportunidade de falar somente sobre isso.Lembro que certza vez, trabalhando com um grupo de usuários de saúde mental, em um grupo que desenvolvia, um me falou:"Julio, quer saber quem sou eu?Tira uma fotografia da minha alma"Putz...me deu uma possibilidade grande. É isso...A arqueologia da terapia ocupacional, em sua constituição histórica, em sua organicidade genética, busca isso: fotografias do cotidiano. A fotografia, para ser boa, precisa, bela, necessita de muitas coisas. Primeiro que o fotógrafo tenha sensibilidade. Procurar o melhor ângulo, a luz adequada, o melhor enquadramento, o jogo com as cores. Até mesmo imagens que julguemos pouco atraentes se tornam lindas.É isso: há semelhança entre minha busca, como terapeuta ocupacional, como analisador e interventor de cotidianos e a fotografia.
Em breve, eu, terapeuta ocupacional, artista e fotógrafo de cotidianos, explico melhor.Por enquanto, é isso.
Até breve e um gande abraço,
Julio.