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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Fragmentos de uma experiência cotidiana: a noite, uma viagem e um táxi

Essa semana, que para mim começou na quinta-feira passada, feriado dedicado a celebração de uma importante data cristã: corpus christi (acho que escreve desta forma), tiveram várias experiências, que chamrei de "alquímicas".
Viajei para o aprazível estado de Minas Gerais. Fui para a roça. Respirei ar puro, brinquei com meu filho, colhi laranja do pé, brinquei com vacas, bois e galinhas, passei por plantações de café, sujei o tênis com barro, entre outras coisas mais. No domingo, ainda em território mineiro, segui para Muriaé, município que fica na divisa com o estado do Rio de Janeiro.
Fui atendendo a um convite feito para participar como expositor do II Congresso Mineiro de Saúde Integral.
Não vou falar sobre o evento, que foi fantástico. Mas falarei de uma experiência incomum.
Durante minha estada nesta agradável cidade, em que pude fazer amigos, rever outros que não via há um tempo (como a genial Fernanda Maia, amiga nos tempos da universidade), saborear a inesquecível cachaça mineira curtida no barril, comer pão de queijos e outras pequenas delícias praticadas pelas exímias quituteiras mineiras, confesso que me cansei. Física e intelectualmente. As atividades foram incessantes.
Na segunda-feira, saindo do congresso, fomos para um restaurante fazer uma confraternização. Lá estava o Dr. Mario Battistti, figura simpatícissima. Teórico, com livros publicados, referência nacional e internacional na área da saúde, brindou-nos com seu imenso carisma e bom humor. Foi uma agradável surpresa aproximar-me e criar, em uma esfera solidária, tal qual preconizado por nós, terapeuta ocupacionais, uma proximidade com ele. Aliás, com todos que estavam lá. Em geral, em nossas memórias coletivas, criamos abismos colossais entre nós, seres simples e mortais, e estas figuras referenciais, que quando nos aproximamos descobrimos serem, assim como nós, seres simples e normais.
Outro fato que quero destacar, ou melhor, emergir, foi a proximidade com a professora Marcia Garcia. Conheço Marcia do tempo em que ainda estudava.
Lembro que certa vez participava de uma mesa redonda na UERJ e a Marcia era a coordenadora desta mesa. Ao final de minha fala, contei uma breve história de uma tal casa azul. Lembro que assim que terminei a história (adoro contá-las) ela me teceu inúmeros elogios. Ainda tinha uma lembrança muito forte deste dia. Mas para ela, profissional competente e referência na área de saúde mental, com inúmeras experiências em diferentes níveis da terapia ocupacional, imeginei que tivesse sido algo corriqueio, mesmo efêmero, para ela.
Não é que, após 10 anos desta cena, ela se lembrou deste dia? Me surpreendi. Fiquei estes anos todos sem vê-la. No entanto, a cena que vivemos ainda estava etronizada em sua memória, assim como na minha. Me senti valorizado. Mais ainda com o adjetivo que ela me deu: um biscoitinho. Quão singelo. Me ganhou pela memória afetiva do que ocorrera 10 anos atrás e pelo "biscoitinho". Muito legal!
Sendo assim, após diversas discussões com alunos dos cursos de terapia ocupacional, enfermagem e fisioterapia de Muriaé, em um evento abrilhantado e muito bem organizado, e algumas comemorações - para nós tudo é motivo para encontros afetivos - tenho que seguir minha odisséia existencial.
Em Muriaé, meu ônibus sairia, em direção ao Rio de Janeiro, às 23:58h. Achei interessantíssimo. E gostei. Acho que agora em diante, marcarei meus compromissos e encontros em horários pouco convencionais, como este. Imagina você combinando com seu chefe: "Meu horário de entrada será às 7:59:26s". Acho que isso revolucionaria as relações. Primeiro em função de nossa autenticidade ficar muito mais clara neste primeiro contato. Fico imaginando, falando com um professor, por exemplo: "Você pode fazer a orientação da minha pesquisa amanhã, Às 13:53, lá na sala principal?" Das duas uma: ou ele vai te chamar de louco (que não considero nenhuma agressão visto que acho a loucura como fuga de uma existência medíocre) ou então vai admirar-te pela autenticidade. Nas duas sairá ganhando.
Mas voltemos ao ônibus. Nas minhas viagens semanais, Rio-Macaé-Rio, em viagens que costumam durar 3 horas, não consigo dormir no ônibus. Não mesmo. E invejo quem o faça.
Mas, nesta de Muriaé, a única coisa que lembro foi que embarquei, coloquei meu cinto de segurança e mais nada. AH, lembro sim. O balanço que ônibus faz ao se aproximar da rodoviária Novo Rio, quando passa por trilhos de bondes que ainda estão por lá. Minha memória cinestésica avisou: está chegando. E quando abri os olhos, estava no Rio de Janeiro. A sensação foi a que entrei em uma máquina de transporte imediato - como nos desenhos do pica-pau, que instantaneamente, desmaterializando corpos, levam de um lugar ao outro. Que experiência interessante. Já passaram por isso? Tiveram a sensação que horas passaram em minutos? Sabe aquela fase da paixão? ficamos 4, 5, 6 horas com a pessoa amada e acaba rápido. Sensação diametralmente oposta a experiência de um engarrafamento ou de fila de banco em dia de pagamento onde os minutos parecem horas. Ô cotidiano...
Saí, ainda lesado por este "transporte metafísico" e segui para um táxi. Adoro conversar com taxistas. Eles tem boas histórias. São conhecedores de tudo. Históra, aquecimento global, economia, frutos do mar, relacionamentos, entretenimentos. Em tempos de especialismos e discursos de competência (leiam isso em Marilena Chauí), são os generalistas contemporâneos.
Não troquei uma só palavra. Que dia estranho...Eu estava estranho. Meu corpo anestesiado pelo cansaço e pelas experiências, que foram várias: as cachaças curtidas, o teórico gente boa, a professora com boa memória, o teletransporte Rio-Muriaé e a viagem com o generalista. Agora, com a cabeça no lugar, percebo que perdi uma grande oportunidade de conhecer melhor a vida ao não ter puxado assunto com o generalista. Mas ele me guarde. Em breve...
Abraços e saudações
Julio